Nasce uma Estrela por Melhor Bastidor

 

Há histórias fantásticas, e também muita baixaria, por trás de alguns filmes. Phil Ramone no livro Gravando! Os bastidores da Música compartilha detalhes de Nasce Uma Estrela.

” Nos estúdios cinematográficos de Hollywood, toda produção é roteirizada antes de começarem as filmagens. Se o filme for um musical, as partes vocais e instrumentrais são gravadas antes de os atores filmares suas cenas. Então, quando filmam uma cena em que há canto, os atores sincronizam o movimento dos lábios com a música. O diálogo, a música e os efeitos sonoros são todos mizados na pós-produção, para ser criada a trilha sonora final.

O desafio no caso de Nasce uma Estrela era que Barbra queria quebrar essa tradição e gravar todas as músicas do filme ao vivo, a medida que cada cena dosse representada. Qual era a razão disso?

Qualquer um que conheça bem o trabalho de Barbra sabe que ela sente e interpreta uma canção de maneiras diferentes cada vez que a canta. Era essencial captar cada nuance de sua voz – e sua expressão facial ao cantar – para transmitir de modo autêntico a premissa de Nasce uma Estrela. Barbra sabia que pré-gravar duas ou meses antes das filmagens comprometeria a espontaneidade de sua interpretação.

(…)

No filme, Barbra interpreta o papel de uma cantora (Esther Hoffman) que se apaixona por um astro do rock, John Norman Howard (interpretado por Kris Kristofferson). A medida que a trama se desenvolve, as orgias de Howard acabam por arruinar sua carreira, enquanto a de Esther começa a decolar.

(…)

Grande parte do filme foi rodado em locação no Arizona e o cenário para uma das principais cenas, um concerto de rock, foi no Sun Devil Stadium, na Arizona State University.  Em vez de simular um cenário e usar extras como plateia, o produtor de cinema Jon Peters contratou um famoso promotor de eventos musicais, Bill Graham, para que ele encenasse um autêntico festival de rock, com apresentações de cinco artistas, entre eles Peter Frampton e Carlos Santana.

A plateia consistia de estudantes e de outras pessoas das redondezas, que pagaram US$ 3,50 pelo ingresso. O plano era que cada uma das bandas de rock tocasse o seu set, com Barbra e Kris Kristofferson filmando suas canções nos intervalos entre cada set. (…)

Quando chegou o momento de filmar a primeira cena de Barbra, a equipe ficou ansiosa. Seria possível gravar tudo ao vivo nestas condições? Será que a plateia iria se comportar, apesar das longas horas que teriam que ficar ali e do calor?  Será que conseguiríamos um som e uma imagem com a qualidade que precisávamos? O cenário estava pronto; a plateia. em seu devido lugar; a equipe, pronta para começar a filmar.

Estavam todos intensamente concetrados. Alguns de nós estávamos tensos por sabermos que não era fácil para Barbra cantar na frente de grandes multidões. Ficamos com toda a nossa atenção voltada oara ela, para ver se estava nervosa. De fato, não havoa por que nos preocuparmos: a sua interpretação de Woman in The Moon em frente das câmeras foi triunfal.

Depois do segundo intervalo, ela voltou e se dirigiu mais uma vez à multidão. “Neste filme, falo a língua do rock’n’roll”, explicou. “Vocês não estão se divertindo pra caramba?”. A plateia veio abaixo. (…) No início da tarde, Santana tocou o seu set e Barbra pré-estreou Evergreen, uma balada que havia escrito com Paul Williams. “Vou ficar arrasada se vocês não gostarem”, disse ela. A plateia gostou e a failmagem continuou até bem depois das seis da tarde.

(…)

Nossa próxima parada seria o cenário para clímax de sete minutos e vinte segundos do filme: o auditório Grady Gammage Memorial, da universidade, um prédio histórico projetado por Frank Lloyd Wright. (…) A cena final era bastante longa. Embora a maioria dos atores torça o nariz a um diretor que queira filmar um plano-sequência contínuo, Barbra insistiu nisso. (..) Antes de deixar o auditório, assiti ao vídeo da cena final de Barbra. Embora ela estivesse maravilhosa, faltava-lhe o brilho que eu já vira em suas representações anteriores. Apesar de duvidar que ela fosse aceitar regravar a cena, resolvi dizer-lhe minhas impressões depois que ela tivesse tido a chance de relaxar. (…)

“Tudo bem, Phil?”, perguntou Barbra. “O que achou da cena de hoje?”.

“Bem”, comecei, escolhendo bem minhas palavras. “Achei boa. Mas falta alguma coisa. Acho que você pode dar mais de si mesma”.  Eu não estava mentindo. Eu sabia que, se Barbra dosse mais fundo, conseguiria realmente transmitir a dimensão da força da personagem. (…) Como eu já esperava, Barbra discordou.

“Você está louco?”, perguntou. “O take ficou bom – está feio”.

E, de fato, um pouco depois ouvi uma batida na minha porta. Era um assistente de produção com um recado da senhora Streisand. “Você tem uma chamda às oito horas no teatro – vamos filmar o final da cena novamente”. Sorri.

  

PS1: Sobre Barbra e Nasce uma Estrela, Phil Ramone ainda ressalta: “Apesar das histórias sensacionalistas que você provavelmente já ouviu, Barbra é uma pessoa delicada e sensível que exige dos colegas apenas aquilo que espera de si mesma e Nasce Uma Estrela foi um filme importante. (…) Havia tensões no set? Sem dúvida. Com todos aqueles grandes talentos trabalhando no filme era certo que haveria brigas”.

PS2: Ele conta, ainda, detalhes sobre Evergreen: “Uma das minhas melhores lembranças foi ouvir Evergreen pela primeira vez. Barbra estava aprendendo a tocar violão para que seus movimentos parecessem reais, e uma noite, enquanto praticava, improvisou uma melodia muito bonita. No dia seguinte, tocou-a para nós e a música era fantástica – quase clássica em sua simplicidade. Barbra também tocou-a para Leon Russell, que a achou belíssima. Barbra ficou muito orgulhosa de Evergreen. Mostrou-se um tanto reticente com relação a contribuir com algo que ela haviacomposto, mas é, de longe a melhor canção do filme. Paul Williams adicionou letra à melodia e Evergreen veio a ser a canção-tema do filme. Eventualmente, ganhou o Oscar e o Golden Globe de melhor canção e é, até hoje, uma das músicas mais requisitadas de Barbra.

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2 thoughts on “Nasce uma Estrela por Melhor Bastidor

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