Cinema Paradiso por Melhor Emprego, Melhor Conselho, Melhor Herança e Melhor Trilha

Cinema Paradiso é um daqueles filmes que merecem ser frequentemente celebrados. É praticamente uma receita para acabar com o mau humor e para dar leveza à alma.

Alfredo é o projecionista do Cinema Paradiso, principal diversão de uma pequena cidade italiana. Ainda que solitária, sua profissão leva magia à vida das pessoas e, como o próprio Alfredo descreve, cada risada é o seu prazer. O filme todo, aliás, é uma celebração ao cinema. “Cinema Paradiso é um filme que encanta qualquer um que cultive algum tipo de afeto pelo cinema. O diretor e roteirista Giuseppe Tornatore lança mão de muitos recursos sentimentais cujos efeitos mais eficientes consistem em evocar os laços emocionais  que o espectador de qualquer idade mantém com os filmes”, ressaltou Cássio Starling Carlos no encarte da Coleção Folha de Cinema Europeu.

Nenhuma frase, porém, é capaz de explicar tão bem o trabalho de Alfredo (e de Tornatore) do que essa cena:

E é o velho Alfredo, o mentor de Totó, quem compartilha o conto:

Quero deixar você contente. Vou te contar uma coisa. Vamos sentar um pouco (…). Um dia um rei deu uma festa. Convidou as princesas mais belas do reino. Um soldado da guarda viu passar a filha da rei. Era a mais bela de todas. Ele se apaixonou, mas o que faria um pobre soldado diante da filha do rei?

Finalmente, um dia ele conseguiu encontrá-la e disse-lhe que não podia mais viver sem ela.  Ela ficou tão impressionada com esse forte sentimento que respondeu ao soldado: se souber esperar cem dias e cem noites sob o meu balcão, então eu serei sua. Caramba! O soldado foi lá e esperou: um dia, dois dias, 10 dias, 20 dias. Toda noite ela controlava pela janela. Ele não saía dali. Com chuva, vento ou neve, ele continuava ali. Os passarinhos faziam cocô nele, as abelhas o comiam vivo, mas ele não se mexia. Depois de 90 noites, ele estava todo ressecado e branco. Lágrimas escorriam-lhe dos olhos e ele não podia segurá-las, pois não tinha mais forcas nem para dormir. A princesa continuava a olhar pra ele. Quando chegou a 99ª noite, o soldado se levantou, pegou a cadeira e foi embora.

Totó: Como assim? No final?

Alfredo: Sim. Bem no finalzinho, totó. E não me pergunte o significado. Eu não sei! Se entendeu, explique-me vc.

Um dos pontos fortes do diretor Tornatore é, sem dúvida, a escolha do elenco. Do garotinho levado com sorriso maroto ao adulto sério, que se emociona com frames do seu passado.

Ah, tem também a premiada trilha de Cinema Paradiso, uma atração à parte, que só deixa a narrativa ainda mais emocionante. E, é claro, só podia ser de Enio Morricone.

PS: Cinema Paradiso ganhou cerca de 20 prêmios mundo afora, incluindo um Oscar por Melhor Filme Estrangeiro.

PS2: É de Tornatore Malena, Baarìa e Estamos Todos Bem – este último com Marcello Mastroianni no papel principal. A versão americana, anos depois, é com Robert de Niro e já foi comentada aqui.

PS3: Cinema Paradiso rendeu uma série de posteres diferentes mundo afora.

    

PS4: Vale prestar atenção em Philippe Noiret (Alfredo), Jacques Perrin (Totó adulto) e Salvatore Cascio (Totó criança), que trabalhou em outro filme de Tornatore.

PS5: Post dedicado à Angel, que também adora esse filme.

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A Vida dos Outros por Melhor Dúvida e Melhor Dedicatória

Se você me conhece ou frequenta esse blog há algum tempo, sabe que eu sou viciada em blockbusters e em Hollywood. Dei poucas escapadas e sempre percorri terrenos seguros: um italiano aqui, uns franceses, um indiano…

Por isso, quando dois amigos me recomendaram A Vida dos Outros, eu não botei muita fé. Decidi ver e, até os primeiros minutos, jurava que era prova de amizade.

Quando dei por mim, estava completamente envolvida e, claro, chorando. Arrisco dizer até que o cinema alemão parece cinza, mas é surpreendentemente sensível. Daí a primeira indicação, de Melhor Dúvida.

Nessa cena, o espião da República Democrática Alemã emociona-se com o escritor Georg Dreiman tocando piano. Ao final, o dramaturdo diz para a amante:

Sabe o que Lenin disse sobre a Apassionata de Beethoven? “Se eu continuar ouvindo, não levarei a cabo a Revolução”. Será que alguém que ouve essa música, que a ouve de verdade, pode ser uma má pessoa?

Eu sei, eu sei, somos todos uns românticos idiotas…

 A outra indicação é a dedicatória, que não vou postar nem explicar para não estragar. Vocês TÊM que ver.

PS1: Já que estamos falando de dedicatória, esse post vai para a Khun e o Sapo. Obrigada! Esse filme foi um presente!!

PS2: Essa é a Apassionata.

PS3: A Vida dos Outros  é, em alemão, Das Leben der Anderen e, em inglês, The Lives of Others. Foi lançado em 2006 e arrematou 61 prêmios, incluindo o Oscar e o  Globo de Ouro por Melhor Filme Estrangeiro.